Mensagens e Reflexões
Data: 09/03/2009
Fonte: Revista Mundo Jovem, fevereiro de 2009
 
Proposta para o texto

Senhores Pais

Apresentamos-lhes este belo artigo. Esperamos que vocês ao lerem e refletirem, enriqueçam ainda mais a sua vida cristã

Com carinho
Equipe de Pastoral
CIC - 2009

 
A Paz é Fruto da Justiça
 

O versículo bíblico “a paz é fruto da justiça” é praticamente a frase central de um belo poema que está no Livro de Isaías ( Is. 32, 15-20 ). Provavelmente, é um poema composto no período do pós-exílio, quando a cidade de Jerusalém já havia sido destruída pelo Império da Babilônia, que massacrou inúmeros povos pela força dos tributos e das armas.

Depois de um cerco de seis meses, por volta do ano 587 a C., a capital do Reino de Judá foi invadida, o templo foi incendiado e muita gente foi executada (2 Reis 24-25). Na visão do Império Babilônico, a invasão militar era a melhor forma de “restabelecer a paz”, tendo em vista que o pequeno reino não só se negava a pagar impostos, como também convivia com a violência e corrupção interna.

Nesse sentido, o poema todo e especialmente o versículo 17 constituem-se em forte denúncia contra o modelo de segurança (ou de insegurança) pública baseado no controle das sociedades por meio das armas. Esse é o modelo dos grandes impérios, seja o Império Babilônico, o Império Romano ou o norte-americano. Infelizmente, tal concepção está introjetada na visão de muita gente na sociedade brasileira. De acordo com o pensamento mais comum de uma parcela significativa da sociedade, é necessário aumentar a repressão para que as pessoas passem a ter mais segurança.

Indústria da morte

Bem sabemos que o jeito de um povo ser e pensar é formado por muitos fatores. Se as experiências de partilha e de solidariedade contribuem, sabemos também que o bombardeio repetitivo de idéias formuladas pelas elites (incluindo as megaempresas de armas) influencia muito. A divulgação exagerada de cenas de violência, desde os desenhos animados e videosgames até os telejornais, filmes e novelas, acaba moldando, não sem interesses, uma sociedade ainda mais violenta.

E quanto mais os pobres brigam entre si, melhor para as elites. Estas podem lucrar mais com a indústria da morte, enquanto não precisam se incomodar com as reivindicações sociais, visto que os grupos desfavorecidos se encontram desunidos. Uma boa parcela da sociedade começa, então, a cobrar medidas mais violentas, inclusive o do próprio Estado. Passa-se a justificar a violência policial e até mesmo a tortura. Direitos que conquistamos após décadas de esforço coletivo, garantidos em nossa própria constituição, passam a ser questionados em nome da “segurança individual”, da “defesa da propriedade” e da “segurança nacional”.

Por esse caminho, viveria em paz uma sociedade que, pela violenta força do Estado (representado pelas forças policiais e pelo exército ou mesmo pelas empresas privadas de segurança), eliminasse qualquer outra forma de violência. É esta a teoria que justifica, por exemplo, todas as invasões militares dos Estados Unidos, as ditaduras na América Latina nos anos 60 e 70 do século passado e a violência policial nas periferias de nossas cidades.

Justiça e Harmonia

De forma enfática, o poema de Isaías nos diz: esse modelo não nos serve! Não é a paz imposta que queremos! Essa paz é mentirosa! “O fruto da justiça é a paz, a obra da justiça consiste na tranquilidade e na segurança para sempre”. Além de denunciar, o poema segue anunciando um sonho: “Meu povo vai habitar em moradas de paz, em casas seguras, em lugares cheios de tranquilidade”.

Precisamos investir em formas de convivência que não contribuam para a retroalimentação do ciclo da violência, que nos ajudem a construir bases de convivência pacífica. Sem isso, não existirá a paz em seu sentido pleno. O termo hebraico normalmente traduzido por paz é “shalom”. Significa convivência mútua, harmonia conjugada com justiça. Justiça pressupõe partilha de bens, partilha da terra, acesso à educação, acesso ao lazer nas periferias, reestruturação da vida nas cidades.

Jesus faz adesão a essa concepção de segurança pública, de shalom. Sua ação sempre pautou pela não- violência ativa, método também assumido por Gandhi, Luther King, Rigoberta Menchú, Hélder Câmara e tantas outras pessoas. É de Jesus que ouvimos: “A paz que eu vos dou não é a paz que o mundo vos dá” (Jo 14,27). Enquanto pessoas cristãs, somos chamadas e chamados a assumir o mesmo método. Com certeza, práticas de não -violência ativa estão muito mais ao nosso alcance do que imaginamos. Não é possível, por exemplo, pensar em paz sem assegurar opções de lazer nas periferias da cidade. Exigência de políticas públicas para juventude, proposição e ensaio de novas relações na cidade significam o rompimento com o ciclo da violência, rumo a uma verdadeira segurança pública.

Há que se estabelecer novas bases de convivência social. De acordo com o texto de Isaías, é um sonho não muito distante de nós. A não ser que nunca comecemos! Como diz o Salmo 85, “Justiça e paz não se separam! Justiça e paz se beijam”

Se continuarmos a agir nessa direção, poderemos nos dizer mutuamente: “A paz esteja com vocês” (Jo 20,21).

 

Edmilson Schinelo
Membro da Equipe Nacional Centro de Estudos Bíblicos - CEBI
Revista Mundo Jovem - Fevereiro de 2009

 
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