O versículo
bíblico “a paz é fruto da justiça” é praticamente
a frase central de um belo poema que está
no Livro de Isaías ( Is. 32, 15-20 ). Provavelmente,
é um poema composto no período do pós-exílio,
quando a cidade de Jerusalém já havia sido
destruída pelo Império da Babilônia, que
massacrou inúmeros povos pela força dos
tributos e das armas.
Depois de um cerco de seis meses, por volta
do ano 587 a C., a capital do Reino de Judá
foi invadida, o templo foi incendiado e
muita gente foi executada (2 Reis 24-25).
Na visão do Império Babilônico, a invasão
militar era a melhor forma de “restabelecer
a paz”, tendo em vista que o pequeno reino
não só se negava a pagar impostos, como
também convivia com a violência e corrupção
interna.
Nesse sentido, o poema todo e especialmente
o versículo 17 constituem-se em forte denúncia
contra o modelo de segurança (ou de insegurança)
pública baseado no controle das sociedades
por meio das armas. Esse é o modelo dos
grandes impérios, seja o Império Babilônico,
o Império Romano ou o norte-americano. Infelizmente,
tal concepção está introjetada na visão
de muita gente na sociedade brasileira.
De acordo com o pensamento mais comum de
uma parcela significativa da sociedade,
é necessário aumentar a repressão para que
as pessoas passem a ter mais segurança.
Indústria da morte
Bem sabemos que o jeito de um povo ser
e pensar é formado por muitos fatores. Se
as experiências de partilha e de solidariedade
contribuem, sabemos também que o bombardeio
repetitivo de idéias formuladas pelas elites
(incluindo as megaempresas de armas) influencia
muito. A divulgação exagerada de cenas de
violência, desde os desenhos animados e
videosgames até os telejornais, filmes e
novelas, acaba moldando, não sem interesses,
uma sociedade ainda mais violenta.
E quanto mais os pobres brigam entre si,
melhor para as elites. Estas podem lucrar
mais com a indústria da morte, enquanto
não precisam se incomodar com as reivindicações
sociais, visto que os grupos desfavorecidos
se encontram desunidos. Uma boa parcela
da sociedade começa, então, a cobrar medidas
mais violentas, inclusive o do próprio Estado.
Passa-se a justificar a violência policial
e até mesmo a tortura. Direitos que conquistamos
após décadas de esforço coletivo, garantidos
em nossa própria constituição, passam a
ser questionados em nome da “segurança individual”,
da “defesa da propriedade” e da “segurança
nacional”.
Por esse caminho, viveria em paz uma sociedade
que, pela violenta força do Estado (representado
pelas forças policiais e pelo exército ou
mesmo pelas empresas privadas de segurança),
eliminasse qualquer outra forma de violência.
É esta a teoria que justifica, por exemplo,
todas as invasões militares dos Estados
Unidos, as ditaduras na América Latina nos
anos 60 e 70 do século passado e a violência
policial nas periferias de nossas cidades.
Justiça e Harmonia
De forma enfática, o poema de Isaías nos
diz: esse modelo não nos serve! Não é a
paz imposta que queremos! Essa paz é mentirosa!
“O fruto da justiça é a paz, a obra da justiça
consiste na tranquilidade e na segurança
para sempre”. Além de denunciar, o poema
segue anunciando um sonho: “Meu povo vai
habitar em moradas de paz, em casas seguras,
em lugares cheios de tranquilidade”.
Precisamos investir em formas de convivência
que não contribuam para a retroalimentação
do ciclo da violência, que nos ajudem a
construir bases de convivência pacífica.
Sem isso, não existirá a paz em seu sentido
pleno. O termo hebraico normalmente traduzido
por paz é “shalom”. Significa convivência
mútua, harmonia conjugada com justiça. Justiça
pressupõe partilha de bens, partilha da
terra, acesso à educação, acesso ao lazer
nas periferias, reestruturação da vida nas
cidades.
Jesus faz adesão a essa concepção de segurança
pública, de shalom. Sua ação sempre pautou
pela não- violência ativa, método também
assumido por Gandhi, Luther King, Rigoberta
Menchú, Hélder Câmara e tantas outras pessoas.
É de Jesus que ouvimos: “A paz que eu vos
dou não é a paz que o mundo vos dá” (Jo
14,27). Enquanto pessoas cristãs, somos
chamadas e chamados a assumir o mesmo método.
Com certeza, práticas de não -violência
ativa estão muito mais ao nosso alcance
do que imaginamos. Não é possível, por exemplo,
pensar em paz sem assegurar opções de lazer
nas periferias da cidade. Exigência de políticas
públicas para juventude, proposição e ensaio
de novas relações na cidade significam o
rompimento com o ciclo da violência, rumo
a uma verdadeira segurança pública.
Há que se estabelecer novas bases de convivência
social. De acordo com o texto de Isaías,
é um sonho não muito distante de nós. A
não ser que nunca comecemos! Como diz o
Salmo 85, “Justiça e paz não se separam!
Justiça e paz se beijam”
Se continuarmos a agir nessa direção,
poderemos nos dizer mutuamente: “A paz esteja
com vocês” (Jo 20,21).
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