Mensagens e Reflexões
Data: 04/08/2008
Fonte: n/d
 
Proposta para o texto

Senhores Pais

Apresentamos-lhes este belo artigo. Esperamos que vocês ao lerem e refletirem, enriqueçam ainda mais a sua vida cristã

Com carinho
Equipe de Pastoral
CIC - 2008

 
Só não pode me faltar... Maria
 
*Eduardo Machado
 

Encontrei-me com um amigo que fez uma trajetória de mudança de vida, em relação à Religião. Criado em família católica, participa hoje de uma igreja evangélica. Como cristão, continuo achando que nós católicos podemos até ter o mapa da mina, mas não somos donos do tesouro. Assim, respeito a caminhada, a busca de cada pessoa.

Conversando com esse amigo ele me surpreendeu com uma ‘confissão’. Dos tempos de católico, sentia falta de duas coisas: da Eucaristia e de Maria.

Realmente, duas presenças centrais, afetivas, profundas, na nossa experiência de fé e de Igreja. A Eucaristia, alimento para a caminhada, mesa de comunhão e partilha e Maria, o toque feminino de Deus na história humana.

Tão forte, tão marcante, que por toda parte, pelo mundo todo, ela é lembrada com nomes variados que reconhecem e homenageiam suas qualidades, virtudes, ou apenas sua presença entre nós. São inúmeros títulos dados à mesma pessoa. Há gente que ainda se confunde, e pensa que Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora Aparecida são ‘pessoas’ diferentes. É a mesma Maria, mãe de Jesus.

Mas percorrendo a ladainha de Nossa Senhora e lembrando os muitos nomes e títulos a ela dedicados, senti falta de um que registrasse uma das características para mim mais marcantes dessa mulher ao mesmo tempo simples e extraordinária.

Contemplando as poucas cenas dos Evangelhos em que aparece a figura de Maria, percebo uma qualidade especial que vai fazer toda a diferença: Maria estava sempre atenta e percebia aquilo que faltava.

Na Anunciação ela recebe a notícia/convite de que fora escolhida para ser a mãe do Messias que seria enviado por Deus. Maria percebe que faltava ao mundo o Salvador e coloca-se à disposição para aquela missão. “Faça-se em mim, segundo sua palavra...”

Ela, que guardava todas as coisas em seu coração, sabia bem o que significava aquela gravidez. Podia procurar as amigas, as vizinhas e dizer que por meio dela Deus cumpria a aliança feita com Abraão e sua descendência. Mas não. Maria sabe que sua prima Isabel, já idosa, também está grávida. O que faz a mãe do Filho de Deus? Percebe que na casa de Isabel falta alguém que a ajude. E ela vai.

Durante três meses serve na casa de Isabel. Podemos imaginar Maria arrumando a casa; na cozinha, preparando o almoço; lavando a roupa, silenciosamente envolvida com as tarefas mais domésticas. De vez em quando pára e sorri. Chama Isabel e pede que coloque a mão sobre seu ventre. “Ele está chutando...”, ela diz. Isabel também sorri. “Olhe, o meu também...”.

E naquelas mãos que se tocam um mistério imenso se faz presente.

A José, que teria que ir a Belém para registrar-se no censo, faltava uma companhia para a viagem. E lá vai ela, mesmo nas condições em que se encontrava.

De Jesus, desde o nascimento, ela se faz mãe, mestra, companheira e discípula, pois a Deus faltava alguém que o‘ensinasse’ a ser humano...

Com Ele já adulto, encontramos Maria numa cena surpreendente pelo inusitado e, ao mesmo tempo, banal. Numa festa de casamento, uma situação constrangedora. Acabou o vinho. Maria, atenta, mais uma vez percebe o que falta e ‘mexe os pauzinhos’. Vai a Jesus, conversa com Ele, apressa a sua hora. Fala aos empregados, vai à cozinha, prepara tudo para que Jesus manifeste sua presença. Um vez resolvido o problema, ela, silenciosamente, sai de cena.

Podemos imaginá-la, tempos depois, em Nazaré, recebendo a visita inesperada do filho andarilho e seus amigos. A eles, faltava quase tudo: um banho, uma refeição quente, um afago, um carinho materno. E ela acolhe e atende a todos e a cada um...

E em anônimo silêncio ela fica, praticamente até o calvário.

Lá, entre tantas dores, dos passos da via sacra, até a cruz, faltava certamente um olhar de mãe. E diante desse olhar, Jesus, que não esqueceu as lições de Nazaré, percebendo a dor do seu amigo João, fiel até o fim, sente que lhe faltará um consolo de mãe. E lhe dá Maria. E olhando para ela, pensando naquele carinho todo guardado em seu coração materno, sabe que lhe faltará um filho. E lhe dá João.

E a todos nós, a quem falta tanto, dá, não sua morte, mas sua Vida. E na morte não lhe faltará um colo acolhedor, ainda que sofrido. Ela estará presente.

Por tudo isso, proponho que homenageemos Maria com um outro título:

“Nossa Senhora daquilo que falta...”

E nessa ‘devoção Mariana’ peçamos que ela que nos ajude a perceber o gesto que falta, a palavra que falta, a atitude que falta a cada um de nós, à nossa comunidade, ao nosso país e ao mundo. Aquilo que está fazendo falta para que possamos dizer como ela:

“Faça-se em nós, segundo a sua palavra...”

No colégio onde trabalho há uma Maria que aprendeu a lição. É a Maria do cafezinho. Conheço pouca gente que faça o seu serviço com tanto cuidado e carinho. A cada um ela dá uma atenção mais que especial. Percebe o que falta e até o que está sobrando. O lanche, que é igual para todos, acaba ficando ‘personalizado’ pela ação carinhosa da Maria. Só numa coisa ela é igual: no sorriso distribuído com generosa gratuidade. O que me faz pensar, e rezar: na sala do café do Loyola, em minhas orações de maio, no corre-corre do dia a dia,

Só não pode me faltar... Maria.

 
*Eduardo Machado é Diretor de Pastoral do Colégio Loyola e colunisa do Jornal de Opinião.
 
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