Encontrei-me
com um amigo que fez uma trajetória de mudança
de vida, em relação à Religião. Criado em família
católica, participa hoje de uma igreja evangélica.
Como cristão, continuo achando que nós católicos
podemos até ter o mapa da mina, mas não somos
donos do tesouro. Assim, respeito a caminhada,
a busca de cada pessoa.
Conversando com esse amigo ele me surpreendeu
com uma ‘confissão’. Dos tempos de católico, sentia
falta de duas coisas: da Eucaristia e de Maria.
Realmente, duas presenças centrais, afetivas,
profundas, na nossa experiência de fé e de Igreja.
A Eucaristia, alimento para a caminhada, mesa
de comunhão e partilha e Maria, o toque feminino
de Deus na história humana.
Tão forte, tão marcante, que por toda parte,
pelo mundo todo, ela é lembrada com nomes variados
que reconhecem e homenageiam suas qualidades,
virtudes, ou apenas sua presença entre nós. São
inúmeros títulos dados à mesma pessoa. Há gente
que ainda se confunde, e pensa que Nossa Senhora
de Fátima e Nossa Senhora Aparecida são ‘pessoas’
diferentes. É a mesma Maria, mãe de Jesus.
Mas percorrendo a ladainha de Nossa Senhora e
lembrando os muitos nomes e títulos a ela dedicados,
senti falta de um que registrasse uma das características
para mim mais marcantes dessa mulher ao mesmo
tempo simples e extraordinária.
Contemplando as poucas cenas dos Evangelhos em
que aparece a figura de Maria, percebo uma qualidade
especial que vai fazer toda a diferença: Maria
estava sempre atenta e percebia aquilo
que faltava.
Na Anunciação ela recebe a notícia/convite de
que fora escolhida para ser a mãe do Messias que
seria enviado por Deus. Maria percebe que faltava
ao mundo o Salvador e coloca-se à disposição
para aquela missão. “Faça-se em mim, segundo sua
palavra...”
Ela, que guardava todas as coisas em seu coração,
sabia bem o que significava aquela gravidez. Podia
procurar as amigas, as vizinhas e dizer que por
meio dela Deus cumpria a aliança feita com Abraão
e sua descendência. Mas não. Maria sabe que sua
prima Isabel, já idosa, também está grávida. O
que faz a mãe do Filho de Deus? Percebe que na
casa de Isabel falta alguém que a ajude.
E ela vai.
Durante três meses serve na casa de Isabel. Podemos
imaginar Maria arrumando a casa; na cozinha, preparando
o almoço; lavando a roupa, silenciosamente envolvida
com as tarefas mais domésticas. De vez em quando
pára e sorri. Chama Isabel e pede que coloque
a mão sobre seu ventre. “Ele está chutando...”,
ela diz. Isabel também sorri. “Olhe, o meu também...”.
E naquelas mãos que se tocam um mistério imenso
se faz presente.
A José, que teria que ir a Belém para registrar-se
no censo, faltava uma companhia para a
viagem. E lá vai ela, mesmo nas condições
em que se encontrava.
De Jesus, desde o nascimento, ela se faz mãe,
mestra, companheira e discípula, pois a
Deus faltava alguém que o‘ensinasse’ a ser humano...
Com Ele já adulto, encontramos Maria numa cena
surpreendente pelo inusitado e, ao mesmo tempo,
banal. Numa festa de casamento, uma situação constrangedora.
Acabou o vinho. Maria, atenta, mais uma vez percebe
o que falta e ‘mexe os pauzinhos’. Vai
a Jesus, conversa com Ele, apressa a sua hora.
Fala aos empregados, vai à cozinha, prepara tudo
para que Jesus manifeste sua presença. Um vez
resolvido o problema, ela, silenciosamente, sai
de cena.
Podemos imaginá-la, tempos depois, em Nazaré,
recebendo a visita inesperada do filho andarilho
e seus amigos. A eles, faltava quase tudo:
um banho, uma refeição quente, um afago, um carinho
materno. E ela acolhe e atende a todos e a cada
um...
E em anônimo silêncio ela fica, praticamente
até o calvário.
Lá, entre tantas dores, dos passos da via sacra,
até a cruz, faltava certamente um olhar
de mãe. E diante desse olhar, Jesus,
que não esqueceu as lições de Nazaré, percebendo
a dor do seu amigo João, fiel até o fim, sente
que lhe faltará um consolo de mãe.
E lhe dá Maria. E olhando para ela, pensando naquele
carinho todo guardado em seu coração materno,
sabe que lhe faltará um filho.
E lhe dá João.
E a todos nós, a quem falta tanto,
dá, não sua morte, mas sua Vida. E na morte não
lhe faltará um colo acolhedor, ainda que sofrido.
Ela estará presente.
Por tudo isso, proponho que homenageemos Maria
com um outro título:
“Nossa Senhora daquilo que
falta...”
E nessa ‘devoção Mariana’ peçamos que ela que
nos ajude a perceber o gesto
que falta, a palavra que falta,
a atitude que falta a cada um
de nós, à nossa comunidade, ao nosso país e ao
mundo. Aquilo que está fazendo falta
para que possamos dizer como ela:
“Faça-se em nós, segundo a sua palavra...”
No colégio onde trabalho há uma Maria que aprendeu
a lição. É a Maria do cafezinho. Conheço pouca
gente que faça o seu serviço com tanto cuidado
e carinho. A cada um ela dá uma atenção mais que
especial. Percebe o que falta e até o que está
sobrando. O lanche, que é igual para todos, acaba
ficando ‘personalizado’ pela ação carinhosa da
Maria. Só numa coisa ela é igual: no sorriso distribuído
com generosa gratuidade. O que me faz pensar,
e rezar: na sala do café do Loyola, em minhas
orações de maio, no corre-corre do dia a dia,
Só não pode me faltar... Maria. |