| Uma leitora
enviou um comentário a respeito dos roteiros das
novelas. De forma resumida, ela diz que um tema
onipresente são as tentativas de personagens centrais
das tramas de prejudicar pessoas com quem convivem
a fim de obter o que desejam. Esse não é um ótimo
pretexto para pensarmos a respeito das influências
da televisão na educação dos mais jovens?
É inegável que a televisão produz efeitos importantes
no comportamento de crianças e de jovens. Mas,
em vez de demonizar o veículo, vamos pensar na
amplitude desses efeitos para compreendermos melhor
nossa tarefa de educadores.
Em primeiro lugar, precisamos reconhecer que
tornamos a televisão um objeto indispensável na
vida das crianças. Nós, que evitamos a todo e
qualquer custo fazer imposições aos filhos, não
titubeamos em tornar obrigatória a convivência
deles com a programação da TV. Acreditamos que
não haja escolha nessa questão, não é? Pois é
bom ter clareza de que é uma escolha ter TV em
casa ou não. Mas julgamos que não ter é deixar
os filhos em um mundo à parte, fora da realidade
social e isolado dos colegas. Uma mãe que contou
a um grupo de amigas que não tem televisão em
casa causou perplexidade. Ou seja: os pais nem
consideram mais a possibilidade de uma vida sem
esse recurso.
Esclarecido esse ponto inicial, podemos pensar
em outro aspecto: como se dava a entrada dos mais
novos no mundo adulto antes da presença da televisão
como modo, talvez principal, de distração e de
entretenimento em casa? De forma gradual e, principalmente,
por narrativas e ensinamentos dos adultos e dos
livros.
Cabia aos pais a tarefa de socializar os filhos,
ou seja, prepará-los positivamente para a convivência
social. Isso significava ensinar os bons modos,
o respeito aos mais velhos, o cuidado com os mais
novos, o uso delicado da linguagem, a obediência
aos adultos, a discriminação entre o que é bom
e o que não é, a solidariedade, o valor da verdade,
as virtudes etc.
Assim, o processo de formação já se encontrava
em franco desenvolvimento quando os mais novos
entravam em contato com características, digamos,
menos nobres da humanidade. O mundo adulto já
podia, portanto, ser julgado de acordo com as
referências recebidas.
Hoje, a televisão introduz as crianças nos aspectos
sórdidos do mundo adulto sem dó nem piedade. Desde
cedo, antes de sua formação ter se tornado consistente,
elas descobrem que pessoas usam a esperteza para
se dar bem, que alguns políticos mentem e prevaricam,
que o uso da virulência nas relações interpessoais
é cada vez mais freqüente, que a busca do lucro
é desmedida etc. E é assim, indefesos e sem condições
de julgamento crítico, que os mais novos são socializados.
Isso só mostra a complexidade da tarefa dos educadores.
Os adultos não podem ficar, como os mais novos,
seduzidos e hipnotizados diante da televisão;
precisam ser críticos e partilhar essa visão com
os mais novos. Se a educação que a TV pratica
é marcante, a nossa precisa ser mais.
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