| “Por
acaso a mulher esquece sua criança de peito, esquece
de mostrar sua ternura ao filho de sua carne?
Ainda que elas esquecessem, eu não te esqueceria”
(Is 49,15)
Não mais suportava aquele casamento de privações
e de desafeto, que transformava sua vida numa
jornada de tristezas. E resolveu, enquanto ainda
era jovem, refazer a vida sozinha, trabalhando
para sustentar os três filhos que já tivera. Estamos
no interior do Nordeste, em fins da década de
1950, época em que as mulheres dependiam, muito
mais que hoje, absoluta e exclusivamente dos maridos
que a sorte lhe reservasse.
Levaria consigo a filha recém nascida e deixaria
com o marido quase sempre ausente o filho que
engatinhava e a filha que já andava. A pequena,
ela a levaria consigo; ainda mamava. Os dois outros
poderiam ficar um tempinho mais com o pai, enquanto,
na capital, tentasse trabalho e moradia para vir
buscá-los.
Tudo decidido. Numa manhã qualquer daquele tempo
já distante, iria embora. Ajeitou-se, embalou
numa roupinha bem pobre a filha que levaria no
peito, levantou-se para partir.
Foi quando olhou para o chão e viu ali o menino
sentado, indefeso e inocente. Deu-se conta de
que ele chorava , pressentindo a separação iminente.
Ela olhou fundo nos olhos. As lágrimas do menino
tornaram-se dores nela... pensou: “ Que será desse
menino aqui sozinho? E se o pai que agora deixo
não chegar logo, quem lhe dará de comer?” E seu
coração se conturbou. Ela tremeu ante as lágrimas
daquele filho... E desistiu!
Desistiu de ir embora porque não poderia admitir
nem mesmo remotamente a hipótese de seu filho
sentir fome, por um segundo que fosse.
Por isso ficou. Ficou para sempre. Ficou pelo
filho,para o filho. Ficou, fiel ao amor de mãe
de que seu coração transbordava. Renunciou-se
a si mesma e, em nome do sentimento que a enraizou
ali, enfrentou o desamor, encarou a solidão, sofreu
a dor da incompreensão, para nunca mais desistir
de ficar pelo filho, pelas filhas, pelo filho
que viria. Pelo outro...
O marido faleceu. O filho que transformou sua
vida? Nem sabe dessa história.
Cresceu, mudou-se, vive longe dela, que nunca
lhe cobrou a mais mínima recompensa pelo gesto
que fizera. Os outros filhos também se foram,
adultos todos, com suas esperanças e dores. E
ela ficou. Fiel ao amor pelo filho, fiel à vida
que dera à luz.
Sua ternura de mãe não lhe permitiu abandonar
nem sua criança de peito, nem o filho de sua carne.
Todas as teorias cessam, todos os raciocínios
falham perante o sentimento que une mãe e filho.
O amor de toda mãe é tão único que é dado pelo
Deus da Bíblia como a mais próxima tradução terrena
do que amor que Ele nos dedica. Naquele momento,
aquela mãe esteve muito próxima de Deus, porque
agiu como Ele age: “Eu não te esquecerei!” E só
esse seu gesto justifica sua vida inteira. São
assim as mães, todas as mães. A verdade e a intensidade
de seu amor pelos filhos serve de termo de comparação
para o amor do próprio Deus por nós. As figuras
maternas como expressão do amor divino se encontram
em muitos textos bíblicos.
Todas as dores se calam, todos os projetos cessam,
todos os sonhos se refazem por amor dos filhos.
Na pobreza ou na abundância, o bem maior da mãe
são os filhos, nos quais elas enxergam a força
da esperança. Mães não são Deus, mas seguramente
aprenderam a amar com Ele. Amam com todo o amor
possível, amam com suas entranhas.
Que esse gesto materno ( e aqui as leitoras e
os leitores podem evocar em seus corações inumeráveis
outros gestos semelhantes), só ele, sirva de homenagem
a todas as mulheres neste Mês das Mães. Sem grandes
arrazoados, sem adjetivos empolados, contemplemos
a força do amor das mulheres pelos frutos de suas
entranhas. E agradeçamos a Deus por sermos filhos
de quem somos, sabendo que só o Coração de Deus
pode conter e superar a imensidade do amor de
nossa mãe.
Parabéns, Mãe! Somos gratos a você. E reconhecidos
a Deus por termos nascido de seu ventre.
Marcos Marcionilo |